Ás vezes nós temos a ilusão de que podemos ser realmente livres, ou seja, desprendido de valores, de pessoas e de tudo aquilo que a sociedade nos cercou para trazer segurança, para si ou para ela, mas que nos sufoca profundamente. A ideia de viver como uma balão sem rumo pelo céu infinito e ao mesmo tempo livre para fazer suas escolhas é muito sedutora, porque nos tira a pressão das expectativas que as pessoas que nos amam tem sobre nós.
No entanto, é preciso ter alguma coisa, uma espécie de lar emocional, algo que nos traga segurança depois de tanto viajar pelo infinito das possibilidades. Podemos chamar isto de amigo, de família, de ética, não sei ao certo quais as abrangências desse local de segurança, mas sei que alguma coisa que nos possibilite sentir coerentes, racionais ou amados deve existir.
O problema é que ao mesmo tempo que se faz necessário, isto nos aprisiona e amedronta a ponto de quanto mais necessitamos, mais precisamos nos manter longe. Um amigo, por exemplo, é um porto seguro para desabafos e conselhos, mas é preciso retribuir tal disposição, e isso pode ser pesado demais para algumas pessoas. Não existe nada mais desesperador que ver os seus próprios problemas, medos e angústias através do outro. É como se tudo aquilo que você esconde debaixo do seu tapete, principalmente para si, fosse exposto e espalhado pela sala novamente por um vendaval que você não tem controle. É preciso maturidade, eu sei, mas para algumas pessoas isso é muito difícil.
A família, por mais vangloriada que seja pelos religiosos e conservadores, é uma das micro sociedades mais bizarras e confusas desse planeta. Junta-se pessoas de níveis de complexidade diferentes dentro de um elo biológico, mas que vangloriamos com propostas sentimentais. Você não ama o seu primo só porque ele tem o mesmo sangue que você, é preciso um longo e vasto relacionamento que transforme a cumplicidade que existe, em ter problemas semelhantes referentes a família, em amor. E quando isto não acontece, nos culpamos por não estarmos presentes o suficiente naquele núcleo ou ressentimos a ausência dos demais em nossas vidas. Mas quem mais entenderia o quão complexo é o temperamento de seus pais, senão aqueles que os conheceram ao longo da vida ou os que tem pais semelhantes porque foram influenciados por exatamente os mesmos fatores?
E quanto a um regimento interno emocional? Valores, ética, ideologias e afins, que possam justificar nossos atos e nos manter o mais próximos de coerentes possíveis. Talvez eu seja mulher demais, ou simplesmente um ser humano, mas não importa quantos valores eu construa, sempre me pego sofrendo com algumas decisões e atitudes que provavelmente também sofreria se tivesse feito o contrário.
E agora o que fazer?
Acho que vou descer e tomar uma coca- cola, está calor e eu mereço.
