Sentiu como se não fosse merecedora de nada. Não sabia
exatamente o que estava merecendo para não se sentir digna o bastante, mas era
como se seus lindos olhos verdes e sua sensibilidade transparente a tornasse
singular perante aqueles diversos olhos comuns e sentimentos escondidos. No
entanto passou horas, talvez minutos, ouvindo-o proferir aquelas palavras que a
machucavam como um papel que corta inoportunamente o dedo, provocando uma
pequena e incômoda ferida. Não havia pedido por aquilo, sua única exigência era
que lhe poupassem os absurdos das inabilidades humanas em se relacionar. Era
uma amiga, apenas isso ou tudo isso. Aceitara o papel de confidente e o fez com
atenção e apreço, talvez seu maior erro era o de não ter feito o mesmo com o
outro. Mas o que contar? Achou que já contava tudo, só que de outras formas.
Mas sou tão óbvia, pensou. Talvez fosse de fato, óbvia e entediante, óbvia e
desinteressante, obvia e simples como a certeza de que sempre estaria ali,
independente de quão despercebida fosse.