domingo, 16 de dezembro de 2012

Play

Sinais confusos, mente imaginativa e carência a flor da pele. Um romance inteiro vivido em sua mente montado com as cenas mais clichês de todos os filmes hollywoodianos de romance. Cada música no seu ipod embalava uma nova fase de sua história de amor. Paixão, tesão, amor, coração partido, coração remendado, desconfiança, traição e término trágico. Em apenas 1 hora desgastou tudo aquilo que nunca poderia ter sido e não foi. Até que um dia conheceu um rapaz e tudo que viveram foi real, muitas músicas embalaram suas histórias verídicas e depois, cansados da realidade que viviam, deram adeus e ela, aliviada, deu o play.


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Fita Adesiva

Ele é simpático, então eu vou lhe dar um pedacinho.
Ela é uma fofa comigo, vou dar também um pedacinho.
Eu não gosto de algumas atitudes desse cara, mas ele nunca fez nada pra mim, então vou dar só um pedacinho.
Me chamaram para uma cerveja. Não tenho muita afinidade com o pessoal, mas não desgosto de ninguém então vou lá e dar pra eles um pedacinho.
Até que um dia, com muito espanto, você se pergunta:
- Ei! Mas aonde é que foram parar os meus pedacinhos?

domingo, 14 de outubro de 2012

O interruptor

Eram 2 horas da manhã e estavam simplesmente acabados. Ficaram desde cedo cumprindo compromissos de casal jovem. Festa de 1 ano da filhinha do amigo, almoço de aniversário do cunhado, compra de enxoval do afilhado que vai nascer e ida ao show de um dos últimos amigos solteiros, um enciumado que sempre se sente deixado de lado pelos casais. Moravam juntos há 4 meses e já sentiam falta de viver seus dias sozinhos. Não é que não queriam estar juntos, era ótimo dormir todos os dias ao lado de quem gosta, dividir as tarefas domésticas, planejar a compra de novos móveis e ser dono de seus próprios lençóis, mas os fins de semana estavam cansativos demais. Antes, se necessário, cada um tinha a liberdade de programar os seus afazeres e faltar no do outro, mas com a junção das vidas, tudo se mesclou de vez. Parece inconcebível para a tia avó de 73 anos que o marido de sua neta não compareça ao seu aniversário porque ele teve um churrasco de outro aniversário de um amigo para ir. Eles são um item agora e todos esperam alguma coisa. Agora, em casa, ela escovava os dentes na suíte e ele, deitado na cama, procurava alguma coisa na TV. Gostavam de saber que o outro estava ali. Ela deitou na cama e ambos ficaram em silêncio, na expectativa de um canal decente. Ele cacabou tomando a iniciativa de desistir de procurar, desligou a TV e virou para o lado, olhando para ela. E agora ambos pensavam "quem vai levantar e apagar a luz?". Não transavam há 3 semanas.



sábado, 6 de outubro de 2012

Entre

Entre fases
Entre paixões
Entre amigos
Entre fins de semana
Entre caminhos
Entre tchau e oi
Entre abrir uma porta e mandar entrar!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Cai Cai Balão

Ás vezes nós temos a ilusão de que podemos ser realmente livres, ou seja, desprendido de valores, de pessoas e de tudo aquilo que a sociedade nos cercou para trazer segurança, para si ou para ela, mas que nos sufoca profundamente. A ideia de viver como uma balão sem rumo pelo céu infinito e ao mesmo tempo livre para fazer suas escolhas é muito sedutora, porque nos tira a pressão das expectativas que as pessoas que nos amam tem sobre nós.

No entanto, é preciso ter alguma coisa, uma espécie de lar emocional, algo que nos traga segurança depois de tanto viajar pelo infinito das possibilidades. Podemos chamar isto de amigo, de família, de ética, não sei ao certo quais as abrangências desse local de segurança, mas sei que alguma coisa que nos possibilite sentir coerentes, racionais ou amados deve existir.

O problema é que ao mesmo tempo que se faz necessário, isto nos aprisiona e amedronta a ponto de quanto mais necessitamos, mais precisamos nos manter longe. Um amigo, por exemplo, é um porto seguro para desabafos e conselhos, mas é preciso retribuir tal disposição, e isso pode ser pesado demais para algumas pessoas. Não existe nada mais desesperador que ver os seus próprios problemas, medos e angústias através do outro. É como se tudo aquilo que você esconde debaixo do seu tapete, principalmente para si, fosse exposto e espalhado pela sala novamente por um vendaval que você não tem controle. É preciso maturidade, eu sei, mas para algumas pessoas isso é muito difícil.

A família, por mais vangloriada que seja pelos religiosos e conservadores, é uma das micro sociedades mais bizarras e confusas desse planeta. Junta-se pessoas de níveis de complexidade diferentes dentro de um elo biológico, mas que vangloriamos com propostas sentimentais. Você não ama o seu primo só porque ele tem o mesmo sangue que você, é preciso um longo e vasto relacionamento que transforme a cumplicidade que existe, em ter problemas semelhantes referentes a família, em amor. E quando isto não acontece, nos culpamos por não estarmos presentes o suficiente naquele núcleo ou ressentimos a ausência dos demais em nossas vidas. Mas quem mais entenderia o quão complexo é o temperamento de seus pais, senão aqueles que os conheceram ao longo da vida ou os que tem pais semelhantes porque foram influenciados por exatamente os mesmos fatores?

E quanto a um regimento interno emocional? Valores, ética, ideologias e afins, que possam justificar nossos atos e nos manter o mais próximos de coerentes possíveis. Talvez eu seja mulher demais, ou simplesmente um ser humano, mas não importa quantos valores eu construa, sempre me pego sofrendo com algumas decisões e atitudes que provavelmente também sofreria se tivesse feito o contrário.

E agora o que fazer?
Acho que vou descer e tomar uma coca- cola, está calor e eu mereço.



quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Feliz dia do solteiro!!

Parabéns pra você que já se envolveu com tanta gente que cada pé na bunda, apesar de dolorido, é uma história engraçada pra contar. Parabéns pra você que gosta de cada começo de ficada como se fosse o último e sofre a cada fim de ficada como se fosse morrer sozinha pra sempre. Parabéns pra você que sempre aparece sozinha nos encontros de família fazendo as pessoas se questi
onarem se você não seria lésbica. Parabéns pra você que apesar da solidão ser uma merda, se mantém solteira para não se enfiar em um relacionamento de bosta como tantos que a gente vê por aí. E parabéns pra você que coloca o seu coraçãozinho machucado na reta porque depois de tudo você aprendeu que não importa o que aconteça VOCÊ SOBREVIVE e VIVE!!

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Lavou tá novo, apesar de rasgado

Estava apaixonada. Amava cada possibilidade infinita daquele envolvimento emocional que surgia de forma inesperada em sua vida. Amava o sucesso que aquele relacionamento poderia ter, amava as brigas que iriam vir e amava ainda mais a desilusão que se aproximava. Aquelas emoções não vinham como uma resposta à sedução que ele fazia, elas vinham dela mesma e da necessidade de substituir as dores do passado que ainda latejavam em seu coração e corpo solitário. Até que no meio do caminho, quando estava próxima de seu objetivo, chegando ao fundo do poço tão almejado, conheceu outro alguém e começou do zero a sua busca por um coração partido.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Começo, meio e...

Nos conhecemos por acaso. Apresentado por um amigo com recomendações de que ele iria me fazer muito bem. Receosa como sou, não criei tantas expectativas. Nosso começo foi explosivo, estava sempre comigo e dialogávamos o tempo inteiro. Parecia que a cada dia eu aprendia mais e mais com ele. Dormir com ele era tão gostoso ao mesmo tempo que uma tortura. Me debatia com a minha obrigação de dormir e com o fato dele estar ali ao meu lado, tão próximo e distante ao mesmo tempo. E assim éramos nós nas primeiras semanas, companheiros inseparáveis e cúmplices.

Depois de um tempo tive que sumir e deixa-lo de lado. Não conseguia mais dar conta da nossa relação com tantos outros compromissos e afazeres que tinha. Era estranho não estar com ele, não saber mais das coisas que ele tinha para me contar e imaginar que havia uma vida acontecendo e eu sem tomar conhecimento dela.

Acalmada a vida voltamos a nos relacionar, mas já não era a mesma coisa. Algo estava diferente e as coisas pareciam confusas. Quem era ele e da onde vinham aquelas novas informações que me contava. Então era isso, depois de tudo que vivemos lá estávamos nós, juntos e sozinhos, tendo perdido a nossa sintonia.

Livro de 600 páginas, foi o tempo que nos matou.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Top 5: Coisas que você só tem vontade de fazer quando precisa estudar

1. Ler outros livros
Por algum motivo todas as outras leituras do mundo parecem muito mais interessantes quando você já tem uma leitura obrigatória. De repente bate no peito aquela vontade de ser uma pessoa intelectualizada e culta lendo o Kafka da sua mãe, coisa que você poderia ter feito nos últimos meses e não fez porque preferiu assistir seriado no notebook, com cobertas e pipoca.

2. Comer
Agora que seus papeis e canetas estão organizados na mesa, o notebook finalmente fechado e a luz adequada, bate aquela fome. E com uma explicação super sensata de "se eu estudar com fome vou ter dor de cabeça" você levanta e adia os estudos mais uma vez.

3. Só uma musiquinha
Você vai estudar e passar horas mergulhada em textos longos e cansativos, então por que não dar uma relaxadinha antes, só para estudar mais animada. É nesse momento que uma musiquinha de 4 minutos viram uma playlist de 1 hora.


4. Facebook
Você postou algo no seu mural, será que comentaram? Será que curtiram? Poxa, não custa nada dar uma conferida, coisa rápida. E lá se foi mais 1 hora curtindo, comentando e vendo vídeos no mural dos outros.

5. Passar um paninho nos móveis
Você ignora a bagunça do seu quarto há dias. Sua mãe já fez a louca, sua sinusite já deu indícios de que está para aparecer e você simplesmente não se importava até começar a ler aquele primeiro parágrafo incompreensível para um ser humano médio sem pós doutorado. Neste instante você corre para a área de serviço, pega um paninho e uma vassoura, volta para o quarto, dobra suas roupas, troca o saco do lixo, enfia objetos inúteis na gaveta de objetos inúteis e pronto! Depois de mais 1 hora de procrastinação e menos 1 hora de estudos você finalmente está pronta para mergulhar no mundo mágico do conhecimento.

Mas antes, uma passadinha no google para encher este post de figuras.

terça-feira, 8 de maio de 2012

"Ele poderia...

... ser um pouco mais alto", pensou Luciana enquanto caminhava em direção ao carro, um palio preto com um rapaz de cabelos curtos e castanhos encostado na porta dianteira.
- Oi, eu sou o Waldyr, primo da Laís.
- Oi Waldyr, eu sou a Luciana amiga de faculdade da Laís.
Se cumprimentaram com um beijo no rosto e ela foi em direção a porta do passageiro. Dentro do carro, com um clima meio desconfortável e sem assunto ela perguntou:
- Para onde vamos?
- Vou te levar para jantar. É uma cantina italiana lá no bexiga. Tem um ambiente gostoso e aconchegante, acho que você vai gostar.
          Luciana achou o nome dele estranho, nunca se imaginou vivendo em um relacionamento com um cara chamado Waldyr, mas ele fora atencioso em planejar o encontro e levá-la a um lugar que pudessem conversar ao invés de um lugar para ficarem bêbados e consequentemente cheios de tesão para algo mais. Durante o caminho ele fazia diversas perguntas, todas com o intuito de conhecê-la melhor. Ela respondia meio que automaticamente já que eram perguntas de praxe em entrevistas de emprego e em todos os encontros que participara. Estava cansada de tanto procurar um relacionamento. Não entendia a própria necessidade de querer estar com alguém, sempre admirara mulheres independentes e solteiras que se preocupam consigo mesmas e suas carreiras. Na maior parte do tempo não se incomodava em ser solteira, mas haviam duas ocasiões em que queria poder segurar um homem pelo braço e chamá-lo de "meu bem", mesmo que ninguém use de fato essa expressão, nas confraternizações familiares e nos domingos de ressaca. Em festas de família, por mais que não se incomodasse e ter suas primas e seus respectivos namorados por perto, odiava quando as pessoas perguntavam se estava namorando alguém, "e aí Lu? Algum namoradinho?" Não! Nenhum namoradinho, nunca houve e talvez não haja por um bom tempo. Pelo olhar das pessoas podia imaginar o que elas pensavam quando respondia negativamente. Deviam achá-la estranha ou uma lésbica enrustida. Dane-se! Não era da conta de ninguém achar nada.
          Já no restaurante Waldyr fazia perguntas e perguntas e após ouvir as respostas a enchia de elogios e mais perguntas.
- Você é muito madura. Por que acha que é tão madura?
Ai Waldyr... você é errado e não só no nome, pensava a cada elogio descontextualizado que ele fazia. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo, ele estava mentindo e tentando seduzi-la mas como sempre não entendia  porque. Seu lado esperançoso e crente nas boas intenções humanas achava que aquela atitude forçada dele para conquistá-la era o desespero que as pessoas tinham de ficarem sozinhas, mas seu lado duro, pelas desilusões da vida, achava que ele só queria levá-la para cama.  Não podia culpá-lo, afinal de contas o segundo momento em que desejava ter um namorado eram nas suas tardes de domingo. A ressaca física e moral da balada de sábado a deixava se sentindo carente, odiava pensar que somente um homem poderia tirá-la daquela situação, no fundo sabia que não era verdade e que ele não seria a solução para os seus problemas, mas naquele momento era a única solução que vinha em sua mente.
- Lu, você quer sobremesa?
Imaginou que não seria muito abusivo de sua parte pedir a sobremesa, Waldyr disse que trabalhava como analista de alguma coisa em algum banco e isso pareceu algo que pagava bem. Mas estava cansada e queria ir embora logo, não se encantou pelo rapaz e também não se impressionou pela imagem que ele refletia dela em seus elogios.
- Nossa, estou cheia. A comida estava ótima, não sei nem se vou conseguir passar pela porta.
Riram.
- Ok, mas o que vamos fazer agora? O que você quer fazer Lu?
- Não sei, acho melhor você me deixar em casa. Tenho que acordar cedo amanhã.
- Mas amanhã é domingo!
- Sim, mas é que eu estou atrasada nas leituras da faculdade, preciso colocá-las em dia antes das provas.
- Entendi. Poxa, queria ficar mais com você. Adorei o seu papo.
- Eu também. A gente marca outro dia.
- Marcaremos. Não vai sumir hein.
Por que ele estava fazendo isso? Não entendia porque ele estava agindo como se fosse muito importante que eles saíssem de novo. Haviam acabado de se conhecer e um sobreviveria perfeitamente bem sem o outro. Pessoas e seus medos de ficarem sozinhas, concluiu.
- Tchau.
- Tchau!
          Abriu o portão, mas somente quando fechou a porta do prédio que ouviu o carro sair. Em casa tomou banho, colocou o pijama e ligou o computador. Era sábado e só tinha depressivos e adolescentes online. Enquanto baixava episódios novos de seus seriado favoritos recebeu uma mensagem de celular. "Chegou bem?" Deduziu que Waldyr já sabia a resposta e apertou o play de um episódio que baixara antes de sair de casa.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ler e ler, só que não...

Primeiro organizou sua mesa de estudos. Empilhou os textos que leria em ordem de prioridade, separou seu caderno de rascunho e arrumou lado a lado sua caneta, lapiseira e marca texto. A partir de agora e durante as próximas 4 horas seguidas assimilaria o máximo de conhecimento possível e se tornaria uma pessoa melhor, ou seja, mais inteligente e sensata. Antes de começar pensou "vou só olhar minhas redes sociais rapidinho antes dessa imersão intelectual, coisa de 5 minutos". 4 horas se passaram. Olhou para os textos, olhou para o notebook e pensou "acho que vou ver um filme na TV". Apagou a luz do quarto e deixou para traz a promessa de produtividade que não havia cumprido.

Sobrevivência

sábado, 7 de abril de 2012

Sociedade Alternativa

Nós últimos tempos eu tenho vivido em um mundo ideal. Onde gays e héteros convivem naturalmente no mesmo ambiente, sem estranheza e sendo amigos. Afinal de contas os meus ambientes de costume são a minha faculdade, a rua augusta e arredores e baladas GLS. Meus pais também tem uma mente aberta, já os testei 3 vezes falando que era lésbica e eles me aceitaram. Até que um belo dia enquanto vivia em meu mundo de diversidade vi uma atualização assustadora no mural do facebook. Uma amiga estava namorando um menino que eu e mais algumas pessoas sabemos que é gay. Não vou entrar em detalhes, mas ele frequenta uma sociedade secreta.

Eu lembrei da época que fiz economia e do quanto eu era infeliz e tensa. Aquele curso que não tinha nada a ver comigo não permitia que eu descobrisse e expusesse o que havia de melhor em mim. Hoje, em jornalismo, sinto que a cada semana sou uma pessoa diferente e melhor (1º semestre é lua de mel né). Eu entendo gays enrustidos, mas devo dizer que não gosto deles. Porque a maioria são pessoas horríveis com o potencial de serem ótimas reprimido e nas outras vezes eles só são pessoas horríveis, porque afinal de contas entre gays e héteros o mundo está cheio delas. E é natural que elas sejam assim, imagine viver sob o constante medo de que as pessoas que você ama descubram quem você é e deixem de te amar de volta. Imagine estar triste por algum problema de relacionamento e não poder falar sobre isso honestamente com o seu amigo de longa data. Agora imagine viver em uma pequena sociedade em que isso nunca vai mudar e nunca haverá espaço para você ser quem realmente é.

Ao dizer essas coisas lembro com alívio do mundo que tenho vivido nos últimos tempos. Um mundo de pessoas esclarecidas, honestas e bem humoradas. Porque é esse mundo que cria, que pensa e que evolui toda a nossa sociedade moderna, enquanto essa outra sociedade de segredos fica presa em discussões e preconceitos do passado.

"Faz o que tu queres pois é tudo da lei."

*Esse texto tem algumas partes obscuras que para proteger pessoas que eu amo tive que deixar assim e confesso que é algo que vou refletir se vale realmente a pena.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vai descer

5h20 da manhã tocava o despertador de João. Tinha 1 hora para se arrumar e ir ao ponto de ônibus, entrava no serviço as 8h em um prédio comercial onde trabalhava como recepcionista. Tomou banho, comeu e colocou seu uniforme. O dia era de sol e parecia anunciar um desconfortável calor que se seguiria por toda manhã e tarde. O ônibus estava cheio de joãos e marias que se amontoavam e cansados esperavam a chegada de seus destinos.

Na parada anterior ao ponto que João descia ele se levantou e se dirigiu a porta. Quando ela se abriu João ficou imóvel. O que aconteceria se não descesse? Se imaginou descendo no ponto seguinte e retornando a pé, ou então chegando no terminal e tomando outro ônibus para voltar. Diria que passou mal ao longo da noite e perdeu o horário. Ou faltaria e alegaria ter contraído alguma doença que o impossibilitasse de sair de casa como intoxicação alimentar, dengue, ou algo bastante contagioso. Poderia ir ao shopping. Poderia ligar para seu amigo Gustavo que estava desempregado no momento e ir a casa dele. Ou poderia, simplesmente, voltar para sua casa e dormir. Diria a sua mãe que esquecera de que era sua folga ou que sua linha de ônibus estava de greve. Não diria nada. Dormiria o resto da manhã e acordaria disposto para fazer o que a falta de tempo não lhe permitia. Organizaria seus games, leria uma revista, veria TV o dia inteiro. Depois procuraria outro emprego. Qual emprego? Não terminara a faculdade de análise de sistemas, logo com somente o ensino médio completo não havia muitas coisas que pudesse fazer.

A porta do ônibus fechou. Gritou "vai descer" e ela novamente se abriu. Desceu do ônibus e se dirigiu ao prédio comercial onde trabalhava como recepcionista.