“Nesta terra de gigantes onde se trocam vidas por diamantes”, era o que dizia uma frase pichada na rua da casa noturna Kiss em Santa Maria/RS. A frase da música dos Engenheiros do Havaí expressa exatamente o que significou a tragédia que deixou 238 mortos e 81 internados em hospitais, pelo menos até o momento deste
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Tive a oportunidade de fazer parte da equipe de comunicação de um grupo de voluntários que se deslocaram para a cidade levando profissionais psicólogos especializados em crises. Participei de reuniões com as autoridades da cidade, visitei a casa noturna e o ginásio que foi usado como um IML improvisado para a triagem dos corpos e conversei com os colegas que fiz na região sobre como eles tinha sido afetados pelo chamado “sinistro”. Quem perdeu alguém na tragédia, não perdeu apenas uma pessoa, que já seria muito, mas perdeu no plural amigos, conhecidos, filhos de conhecidos e pessoas que lembravam só de rosto, já que Santa Maria é uma cidade pequena, com um pouco mais de 260 mil habitantes.
Eu queria passar tudo que vi e vivi nesta viagem, mas me sinto injusta em explorar as tragédias da histórias que conheci, acho que a grande mídia já fez isso ao nos mostrar o rosto de cada jovem que se foi, quem eram, o que faziam, com quais outras vítimas se relacionavam. Se eu tivesse que traduzir a minha experiência, a traduziria em flor. Em frente a Kiss haviam centenas, talvez milhares delas, pequenos pedaços de vida breve e perfume que hipnóticamente me fizeram mensurar o que havia acabado de acontecer.
Mas não são só esses números gritantes de vítimas diretas e indiretas que chocaram o país, mas foi lembrar que todos os dias quando saímos de casa, nós colocamos nossas vidas em risco e nossos amados também. Não me refiro ao clichê de que podemos a qualquer momento ser atropelados por um ônibus, mas ao fato que diante de um país de visível e bem sabida corrupção, é difícil saber se os ambientes que frequentamos são de fato seguros. Saber que a casa noturna que você tanto frequenta naquela rua movimentada, conhecida e visível a todos não possui as condições de segurança necessárias que os documento legais que recebeu da prefeitura lhe garante ter.
Não quero parecer dramática, mas apesar dos semáforos e das faixas de pedestres, nós vivemos em um grande caos, dentro de um contrato social% que não é cumprido. Espero que a tragédia em Santa Maria não tenha sido em vão e que nosso sono seja perturbado pelo anseio proativo de combate a corrupção, porque não é só reavaliar os alvarás das casas noturnas do país, mas reavaliar e transformar comportamentos. O que nos resta agora é esperar que esses desejos não cessem junto com a perda de interesse da grande mídia pelo assunto, que nossa atual simpatia pela dor e desejo de justiça não sejam uma moda passageira do Sensacionalismo Fashion Week.
