
... ser um pouco mais alto", pensou Luciana enquanto caminhava em direção ao carro, um palio preto com um rapaz de cabelos curtos e castanhos encostado na porta dianteira.
- Oi, eu sou o Waldyr, primo da Laís.
- Oi Waldyr, eu sou a Luciana amiga de faculdade da Laís.
Se cumprimentaram com um beijo no rosto e ela foi em direção a porta do passageiro. Dentro do carro, com um clima meio desconfortável e sem assunto ela perguntou:
- Para onde vamos?
- Vou te levar para jantar. É uma cantina italiana lá no bexiga. Tem um ambiente gostoso e aconchegante, acho que você vai gostar.
Luciana achou o nome dele estranho, nunca se imaginou vivendo em um relacionamento com um cara chamado Waldyr, mas ele fora atencioso em planejar o encontro e levá-la a um lugar que pudessem conversar ao invés de um lugar para ficarem bêbados e consequentemente cheios de tesão para algo mais. Durante o caminho ele fazia diversas perguntas, todas com o intuito de conhecê-la melhor. Ela respondia meio que automaticamente já que eram perguntas de praxe em entrevistas de emprego e em todos os encontros que participara. Estava cansada de tanto procurar um relacionamento. Não entendia a própria necessidade de querer estar com alguém, sempre admirara mulheres independentes e solteiras que se preocupam consigo mesmas e suas carreiras. Na maior parte do tempo não se incomodava em ser solteira, mas haviam duas ocasiões em que queria poder segurar um homem pelo braço e chamá-lo de "meu bem", mesmo que ninguém use de fato essa expressão, nas confraternizações familiares e nos domingos de ressaca. Em festas de família, por mais que não se incomodasse e ter suas primas e seus respectivos namorados por perto, odiava quando as pessoas perguntavam se estava namorando alguém, "e aí Lu? Algum namoradinho?" Não! Nenhum namoradinho, nunca houve e talvez não haja por um bom tempo. Pelo olhar das pessoas podia imaginar o que elas pensavam quando respondia negativamente. Deviam achá-la estranha ou uma lésbica enrustida. Dane-se! Não era da conta de ninguém achar nada.
Já no restaurante Waldyr fazia perguntas e perguntas e após ouvir as respostas a enchia de elogios e mais perguntas.
- Você é muito madura. Por que acha que é tão madura?
Ai Waldyr... você é errado e não só no nome, pensava a cada elogio descontextualizado que ele fazia. Ela sabia exatamente o que estava acontecendo, ele estava mentindo e tentando seduzi-la mas como sempre não entendia porque. Seu lado esperançoso e crente nas boas intenções humanas achava que aquela atitude forçada dele para conquistá-la era o desespero que as pessoas tinham de ficarem sozinhas, mas seu lado duro, pelas desilusões da vida, achava que ele só queria levá-la para cama. Não podia culpá-lo, afinal de contas o segundo momento em que desejava ter um namorado eram nas suas tardes de domingo. A ressaca física e moral da balada de sábado a deixava se sentindo carente, odiava pensar que somente um homem poderia tirá-la daquela situação, no fundo sabia que não era verdade e que ele não seria a solução para os seus problemas, mas naquele momento era a única solução que vinha em sua mente.
- Lu, você quer sobremesa?
Imaginou que não seria muito abusivo de sua parte pedir a sobremesa, Waldyr disse que trabalhava como analista de alguma coisa em algum banco e isso pareceu algo que pagava bem. Mas estava cansada e queria ir embora logo, não se encantou pelo rapaz e também não se impressionou pela imagem que ele refletia dela em seus elogios.
- Nossa, estou cheia. A comida estava ótima, não sei nem se vou conseguir passar pela porta.
Riram.
- Ok, mas o que vamos fazer agora? O que você quer fazer Lu?
- Não sei, acho melhor você me deixar em casa. Tenho que acordar cedo amanhã.
- Mas amanhã é domingo!
- Sim, mas é que eu estou atrasada nas leituras da faculdade, preciso colocá-las em dia antes das provas.
- Entendi. Poxa, queria ficar mais com você. Adorei o seu papo.
- Eu também. A gente marca outro dia.
- Marcaremos. Não vai sumir hein.
Por que ele estava fazendo isso? Não entendia porque ele estava agindo como se fosse muito importante que eles saíssem de novo. Haviam acabado de se conhecer e um sobreviveria perfeitamente bem sem o outro. Pessoas e seus medos de ficarem sozinhas, concluiu.
- Tchau.
- Tchau!
Abriu o portão, mas somente quando fechou a porta do prédio que ouviu o carro sair. Em casa tomou banho, colocou o pijama e ligou o computador. Era sábado e só tinha depressivos e adolescentes online. Enquanto baixava episódios novos de seus seriado favoritos recebeu uma mensagem de celular. "Chegou bem?" Deduziu que Waldyr já sabia a resposta e apertou o play de um episódio que baixara antes de sair de casa.