Sabe do que brasileiro gosta? De fantasia. A gente liga na novela das "9" para viver na fantasia do apartamentinho no Leblon, na vilã que quer destruir a mocinha para conquistar o galã e seu dinheiro. A gente não quer imaginar que a Wanessa Camargo faz sexo grávida, a gente quer vê-la toda linda nas revistas e sendo entrevistada pela Angélica, falando sobre seus desejos de grávida e mostrando o quartinho de bebê que ela comprou em Nova York. Aí vem o Rafinha Bastos e estraga tudo associando ela com sexo e pedofilia/canibalismo. E agora o que nos resta? Viver com o fato de que a maioria dos brasileiros tem uma vida difícil para ter e criar seus filhos? Que se um dia eu tiver filhos, vou pagar o quartinho dele em várias prestações das Casas Bahia? E que eu, uma simples mortal, vou ter que transar com o meu marido, sob recomendações do médico do convênio, para induzir o parto natural? E poucos meses depois eu vou voltar a trabalhar com o coração na mão, deixando o meu bebê com a velhinha da minha mãe porque uma babá qualquer pode torturar ele? Não. Eu não quero pensar nisso, quero ficar ofendida pela piada de mal gosto.
E que ousado esse Rafinha Bastos por nos lembrar que o Fábio Assunção cheira cocaína. Ok, foi divertido para a mídia esculachá-lo na época do episódio. Todos nós lemos e tivemos uma opinião sobre isso. Mas ele deu a volta por cima... E é isso que a gente quer! Um ídolo que dê a volta por cima, para que a gente saiba que quando estivermos por baixo, também teremos uma segunda chance. Não. Não precisamos refletir sobre o fato do Fábio Assunção nunca ter ficado realmente por baixo, uma vez que ele tem uma história longa na TV e dinheiro o suficiente para pagar uma ótima reabilitação. A gente não precisa lembrar que ele não é uma criança de rua viciada em cola porque tem fome e que nunca vai se recuperar porque nem o Estado e nem artistas ex-dependentes tem sensibilidade e responsabilidade o suficiente para ajudar elas. Também não precisamos lembrar que se eu, uma pessoa qualquer e da classe média, fosse viciada em cocaína dificilmente iria conseguir uma segunda chance no mercado de trabalho. A gente também não precisa analisar o fato de que muitas crianças e jovens perdem seu futuro, quando não a vida, por causa do trabalho no tráfico de drogas. E que uma pessoa esclarecida como o Fábio Assunção cagou pra isso e cheirou cocaína para se divertir e relaxar, mesmo assim. Vamos ignorar tudo isso, como ignoramos moradores de rua e pedintes quando não os encaramos no olhos e dizemos "desculpa, não tenho dinheiro".
Parecem tempos difíceis agora para o Rafinha Bastos, mas sabe como eu sei que vai passar? Porque hoje nos deliciamos acompanhando sua queda e amanhã quando ele realizar algum feito o redimiremos porque nada nos faz mais felizes do que uma boa novela com inversões de papéis, vitória do protagonista e morte do vilão. E quem é o vilão? O mundo real que fica aí, acontecendo e destruindo nossas fantasias.
This is Brasil!
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