“O que é água?”
Wallace morreu em 2008, antes da tecnologia mobile e das mais diversas redes sociais invadirem nossas vidas e se tornar parte delas tanto quanto respirar ou comer. Por causa disso, estamos cada vez mais distantes de saber o que é a água, isto porque nos momentos entediantes da nossa rotina, como esperar pelo ônibus, ficar parado na fila do supermercado, ou vendo fotos de revistas com famosos na sala de espera de um consultório médico, não estamos mais necessariamente sozinhos, estamos conectados com os nossos amigos e com o mundo, através de nosso celular ou tablet. Quando Wallace diz para usar aquele tempo entediante na fila do supermercado para “tomar uma decisão consciente sobre como pensar e em que prestar atenção, senão você vai ficar frustrado e arrasado toda vez que tiver de ir às compras”, hoje conseguimos escapar dessa situação, não precisamos mais usar esse tempo para pensar e nem temos que ficar entediados na fila, pegamos o nosso celular e é como se toda a nossa rede de amigo estivesse na fila com a gente. E está. Você pode desabafar para um colega no whatsapp ou no status do facebook sobre o quão entediante é a fila, se o rapaz na sua frente estiver com o cofrinho aparecendo você pode tirar uma foto e enviar para os seus amigos rirem com você. Não estamos mais sozinhos na nossa vida rotineira e isso é um problema. Deixamos de prestar atenção nas coisas ao nosso redor e ficamos cada vez mais inseridos na nossa bolha e isso nos desumaniza de alguma forma. Frequentamos lugares cheios de pessoas e não reparamos em nenhum rosto, então elas deixam de serem realmente pessoas para nós e se tornam meros figurantes nas nossas vida. Por isso não importa muito quando compartilhamos a foto do cofrinho do cara da fila, não só com nossos amigos, mas nas redes sociais, porque não conhecemos aquela pessoa, não pensamos sobre ela e a vida que ela pode viver, ela é um acessório de cena, em um mundo que só existe para nós mesmos. Por isso não fazemos ideia do que seja água. Assim como no oceano, vivemos em uma coexistência de organismos responsáveis pela ordem das coisas. Para um peixe poder existir enquanto peixe ele precisa que a cadeia alimentar a que ele pertence funcione, que a temperatura da água seja a apropriada para que ele se reproduza e se oriente, e que a corrente dessa água o leve sempre para os mesmos lugares que seus acestrais iam para acasalar, reproduzir e sobreviver. A aproximação que a tecnologia nos proporcionou ao mesmo tempo nos distanciou, não uns dos outros, mas de nós mesmos. O momento em que Wallace traça uma possível vida da senhora gordinha com o filho no caixa do supermercado ele não está se aproximando dela, não se trata de conhecê-la melhor, porque afinal de contas ele está supondo sobre a vida que ela leva, mas ao fazer isso ele está se aproximando de si mesmo, da sua capacidade de se sensibilizar com o outro, de se atentar a própria fragilidade e como isso pode estar presente em um desconhecido.
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